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AS FOTOS
Ao longo desses anos, tenho fotografado esporadicamente esses meninos, com
pontas de filmes, sobras de algum trabalho, filmes vencidos, as vezes filmes
mofados. Mas fico sempre comovido com o interesse deles em participar das fotos,
sua pressa e insistência em
ver os resultados, processo que, no caso do preto e branco, pode levar
meses pela minha
falta
de tempo ou de papeis e químicos disponíveis no meu laboratório. Com o Ares,
pelo status especial de afilhado, pude fazer um ensaio mais sistemático com o
qual descobri a aplicação da fotografia, do retrato, como ajuda na recuperação
da auto-estima dele, menino fragilizado, aos 6 anos, pela morte repentina do
pai. Chamei essa experiência de "Foto - terapia" e tenho visto esse
mesmo processo acontecendo também com os outros meninos que se sentem
valorizados com o auto-reconhecimento proporcionado pela fotografia: "Esse
daqui sou eu!" Ao oferecer-lhes suas fotos e observar suas reações
sinto-me como o colonizador português dando espelhos para os índios! Chego até
a pensar se esses meninos não seriam mais bem tratados pelos pais a partir da
introdução de seus retratos nas paredes de suas casas...
É sabido que as crianças são o assunto mais fotografado pela imensa
multidão dos usuários de câmeras. Mas que crianças? Certamente não os
filhos das famílias de baixa renda como os do meu bairro para quem só resta da
infância duas ou três carteirinhas plastificadas com os indefectíveis 3 x
4.
(A legião dos brasileiros sem terra e sem teto, somam-se, a meu ver, os
"sem fotos". um vazio inpreenchível na vida pois, como diz Cartier
Bresson: "Não podemos revelar e copiar uma lembrança." Meu trabalho
fotografando esses poucos meninos ao meu redor, é pingo d'água no incêndio da
floresta mas, como dizia o lendário passarinho, sinto que estou fazendo a minha
parte.
